quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Pausa para paz

Amor é refúgio.
Pra passar stress a gente já tem o capitalismo neoliberal e seus desdobramentos.
Amor é pra você pensar que vale a pena estar aqui apesar dos pesos só pra poder olhar aquele rosto específico que faz sua alma brilhar.

Amor não deve ser martírio. Amor é pra ser copo d'água 16h no auge da seca de Brasília.

Amor é concretização do sonho que queremos, e não reprodução das lógicas que precisamos destruir.

Amor é futuro almejado e presente construído. Dia a dia e para cima. Transbordar de entrega.

Amor é potência pulsando de vida que ajuda a criar novas vidas em uma.

Amor é caminho, labirinto, sinuosidade. Amor é intenção de cura. É busca por completude.

Ninguém nos completa.
Mas o amor nos completa.
Preenche espaços e ausências, apazigua feridas. Amor é permanência e despedida. Amor é plenitude e maximização do ser. Amor é rio que nutre a terra que o cerca. Amor é terra em que florescem lírios, caliandras, flor de jagube, girassóis.

Amor é miríade de metáforas para expressar o inefável e registrar: que senti. E sinto. Sentimos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

metamorfose

para Edmar

rasgo o silêncio
e o torno fecundo
sopro água, cuspo fogo
lambo feridas antigas
chega de esfregar sal
eu quero sanar

(que te importam minhas chagas?
meus vícios de tristeza
"do que a gente sabe da cidade dos outros?")

quando morreres, ninguém te devolverá
o amor que não deste
podes enterrá-lo
mas jamais frutifica
o que foi plantado errado

de ervas daninhas estou farta
(e do lirismo que não é libertação)
quero alecrim e alegria
manjericão e paz
amor e repouso
descansar nos braços do mar.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Para Ariadne

essa dor de ser mulher
eu a carrego
e sinto
no meu útero
na minha vulva
nos meus ossos
nos meus olhos
na minha carne
na minha alma



essa dor de sofrer só
de confiar neles sempre com receio
de ter sua subjetividade
construída tanto sobre
o medo

essa dor de ser mulher
e tratada como inacabada
pouco confiável
emocional demais
sempre policiada
em seu existir
essa dor de resistir diariamente
toda mulher a conhece
até mesmo as de extrema direita
apressam o passo ao ver um homem no caminho
na rua deserta
onde habita o desespero

essa dor de transbordar
um sangue desprezado
e seguimos buscando
"criar uma nova vida"
no apoio mútuo
na luta
no silêncio
nos chás e ervas
na dança
na poesia
na angústia
criamos como artistas mulheres
(o "artista" não especificado é homem)
atiramos em várias direções na ânsia
da mera sobrevivência

e então algo rompe o muro
e então a realidade bate à nossa porta
impassível
para rasgar os véus da dor
que tentamos esquecer

nenhuma mulher precisará
olhar longe para ver a violência
está na nossa pele
no nosso sexo
está em toda forma de destruição
que a supremacia masculina
imprime a nossos corpos

e resistimos
e melhor o fazemos quando em união
algumas de nós, porém
se quebram
e se vão
partem antes da hora
tornam a dor seu próprio fim
e esvaem suas vidas
pelas suas próprias mãos

poderia ter sido eu.

domingo, 16 de outubro de 2016

"Eu lembro que de vez em quando, eu era obrigado a fumar na janela daí
Sua janela tem um parapeito e pra não deixar a fumaça entrar na casa, eu ficava sentado no parapeito do sexto andar né
Jogando a fumaça pra fora
De vez em quando eu pensava que se eu caísse dali, tava tudo bem sabe, não tinha tanto problema, eu estava tão feliz nó
Mas eu não caía né, eu não me jogava
Meus planos tinham você no meio, e morrer não tinha você."
 Vitor Brauer - Dezembro http://vitorbrauer.bandcamp.com/track/dezembro

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

escuro II

eu não quero trazer ninguém
para esse lugar escuro onde vivo
dentro da minha cabeça
eu não quero trazê-lo
posso falar sobre isso
mas dispenso visitas dentro
por aqui dói demais
é tudo agudo e áspero
cheio de arestas
e lacunas

prefiro visitar os lugares luminosos alheios
ou, ainda, os que apesar de escuros,
ainda permitem caminhar
não quero ser sombra
quero ser Lua
satélite lânguido e pálido
que ilumina os amantes apaixonados
sexto Arcano Maior:
você quer caminhar comigo?
segure minha mão
enquanto te for possível
e soar doce
não pedirei para ir além
aceito o cabível
reflito sobre a transitoriedade
impermanência que permeia tudo
e a todos

"estejam em paz", ela disse
é o que desejo a eles também
a elas
a mim própria

nós que tentamos muito
nós para quem os dias são desafios
que por vezes beiram perigosamente o insuportável
nós que tentamos muito
cansamos muito

um copo d'água
e um abraço
compreensão
não é por querer que me sinto assim
não é por falta de tentar

às vezes sinto que o mal-estar reside até nos meus ossos
ainda estou cheia de amor, contudo
o que talvez seja uma potente redenção
quando se é depressiva
renovo minha ligação com a vida
renovo meu pacto com minha própria vida
de bom grado

me quebrei tantas vezes e de tantas formas
arrebentei meus sentimentos gastos contras as rochas
me arrebentei todinha pela estrada
meus poemas são cheios de metáforas
sobre pedaços e cacos

ainda há amor, contudo
e muito
não imputo a ninguém salvar minha vida
este ofício é intransferivelmente meu
o que peço é hiatos de paz
e doçura

ainda que quebrada, ao lado dele me refaço
inteira
cada dia e cada noite
vagalumes e estrelas reluzem mais belos
durante a noite
sei que por aqui "é escuro e frio
mas também bonito"

Sol na casa 12 oposto a Saturno
brutalmente oposto
apesar disso, Lua em câncer
domiciliada no meio-céu
amo tanto e amo amar
e amo amá-lo
"o amor comeu meu medo da morte"
embora insone
tenho um bom par de olhos
para olhar quem escolhi próximo a mim
quando minha mente não quer descansar

e apesar da frustração que por vezes me exaure
se eu pude conhecer alguém assim
e ser amada em minhas fragilidades
se jamais preciso pedir perdão por ser eu
então há algo de muito certo
em todo esse processo

a dor não é mais real do que a alegria
do que os bons momentos
do que o amor
a vida é real em sua multiplicidade

próxima a ti
minha vida floresce mais vívida
intensamente
profundamente
intimamente
delicadamente
no contato com tua alma
emergem e redescubro
as partes minhas mais bonitas
que, afinal,
sobreviveram a todo caos

gratidão pelas noites
e pelas manhãs.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Refúgio

Que coisa impressionante é o amor e sua capacidade de abrir os asfaltos estéreis que nem a flor do Drummond, de ocupar os espaços e transbordá-los, de romper limites arbitrários para traçar caminhos para outros mais humanos e solidários. 

Amar é insurgir contra o tempo da máquina e criar outro. Um tempo e um mundo novo em que tudo brilha diferente. Tempo de delicadeza. De vozes baixas. De arder, passional & febril, tanto quanto de repousar na suavidade. Suspirar e repousar lado a lado. De mãos dadas. Ou no colo de alguém. A vulnerabilidade da entrega. E a beleza que reside no inefável. Na intimidade. 

"Eu dei-lhe a flor de minha vida"
Tempo e sinceridade no estar ali são algumas das coisas mais preciosas que você pode dar a alguém.


Amar é uma dádiva.
 

Mas escolham bons solos para as sementes. Na areia, não costuma brotar. Regar areia geralmente é vão. Não se trata de atribuir culpas, e sim de respeitar a natureza alheia. Escolher permanecer, frente ao amor e a intimidade, é um ato de coragem tanto quanto deixar ir quando não se cabe mais ali.

A vida é custosa demais para termos mais peso nela. Merecemos refúgio. Espaço-tempo coexistindo com alguém que te permita digerir a vida. E cuidar do território sagrado que é o espaço físico e psíquico do outro para que o contato entre uma terra a outra, ou um mar a outro, seja nutritivo. Que o conectar seja são, que seja doce. Merecemos refúgio.
{tenho tido. }

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

mother did it need to be so high

eu faria quase qualquer coisa pela oportunidade de te dar um último abraço 
mas infelizmente isso é impossível
só me resta viver com a saudade e carregar esse fardo 
o amor de outras pessoas ameniza um pouco esse vazio e esse terror da tua ausência
e de ser obrigada a viver com essa ausência, indelével
eu progredi tanto mas isso sempre vai me rasgar e arrebentar todinha
essa falta
a despedida não foi só prematura, foi-me arrancada
e de um jeito muito brutal
e não há escapatória se não viver com isso
o melhor possível

eu juro do fundo do coração que tô tentando ficar bem
ser feliz, até ficar viva
não tentar te seguir do outro lado
não te imitar na morte
e suicídio já era uma questão mais antiga na minha vida antes do seu
e o quanto você me ridicularizou por isso...
 
saudade do jeito que você mexia no meu cabelo
do som da sua voz e da sua risada
escrevi prosa desde criança, agora também faço poemas
queria mostrá-los a você
queria cantar pra você
aprendi Father & son, do Cat Stevens

eu passei na UnB um mês depois do teu suicídio
quem diria né
mas nunca consegui cursar
já se passaram 4 anos
em novembro você faria 59 anos
dia 21
uma das minhas melhores amigas é escorpiana
você odiaria ela
você parecia me odiar às vezes
sei que era um quadro mental grave
mas as marcas ficaram
eu também fiquei
e dói tanto, ninguém deveria ter de passar por isso o suicídio da própria mãe
qual o peso simbólico de quem te colocou no mundo não conseguir suportá-lo?
eu ainda tô aqui, apesar de tudo
queria poder te abraçar e poder deitar a cabeça no seu colo
e queria que você tivesse orgulho de mim
ninguém me admirava tanto
e ninguém me destruiu tanto, também
mesmo antes de morrer
meu cabelo todo ficou mais fino e mais ralo depois que você morreu
não foi uma queda, foi simplesmente acontecendo agora ele tá azul
lembro de você achando o máximo eu com uns 6 anos te falando sobre a fase azul do Picasso
melancolia
você dizia que eu fui a gravidez acidental mais linda do mundo
não queria ter perdido você assim
espero que você esteja em paz
e que um dia eu tenha pra mim também.