sexta-feira, 12 de abril de 2019

intransponível

11.04.2019

existem distâncias
para as quais não há palavras


existem caminhos
que só são possíveis bifurcados

existem destinos
bordados para não ser

existem profundos
que não há toque capaz de reparar

existem abismos
cuja única forma de atravessar
é voando
mas cansei-me
apesar de filha das águas
meus pés pertencem a solo terrestre
e embora cansada
exausta
de caminhar
me comprometi
eu vou até o fim

ontem um monge budista
disse:
"difícil é receber a vida na forma humana"
por ora é a minha

"corpo: perfeito instrumento de tentar".

sexta-feira, 1 de março de 2019

escombros

28.02.2019

às vezes me sinto como
escombros
ruínas do que eu poderia
ter sido

sacudo a cabeça e suspiro
eu não tive outra vida
eu não tive outra família
eu não tive outra infância
nem outra adolescência

eu tive o que a vida me deu
tive também amor
tive também cuidado
tive também incentivo
tive também meus dons
e os tenho ainda
e os carrego comigo

tive a vida que recebi
e tenho hoje a vida que escolho
tenho minha saúde
tenho minha coragem
tenho a consciência
do quanto me custou cada passo
para chegar até aqui

se a metáfora com escombros
e ruínas
me veio a mente
tenho meu flerte contra a civilização
contra a colonização
e a domesticação de corpos
e a tentativa de destruição
do espírito
promovidas pelo capital

como uma cidade abandonada
dia após dia, se deixar
se recobre de verde
gradualmente
heras cobrindo paredes
raízes rachando calçadas
se eu fosse ruínas de cidade
eu escolheria tornar-me de novo
floresta
árvores frutíferas
árvores floridas
árvores alquímicas
com o princípio mais sagrado
a vida
e toda cura
e toda morte
que ela contém.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

laríngeo

meu sistema imune é muito bom
eu me alimento bem
eu sei me cuidar
eu sei as ervas certas
e sei buscar ajuda

o que me adoece, vez e outra
são minhas emoções
expurgo toxinas sentimentais
minha energia escassa escasseia mais

o gosto amargo na boca
a garganta doendo, a voz rouca
talvez seja a compensação do meu corpo
para não gritar

se adoeço, busco repouso
recolho-me para me refazer
mais do que remédios, eu respeito
que o que preciso é digerir
mágoas
raivas
e quaisquer estilhaços de decepção
que possam ter se alojado em meu peito

para as dores do corpo há diversas ervas
para as da alma também
contudo, por vezes, para curar
o principal é silenciar
deixar sangrar até que passe
aprendendo com o infortúnio
de que forma seguir remando
para a outra margem.

domingo, 2 de setembro de 2018

release your dead, holy ancestors

(18.08.2018)

a vida é cheia de mistérios
uns lindos, outros trágicos
belezas sutis
enquanto eu conseguir,
que minha existência
que minha persistência
em estar aqui
seja também um tributo
a quem não conseguiu seguir
pois sei quanto dói
e sei quanto custa
este para alguns tão mero fato
de estar aqui

eu choro meus mortos
e os honro também
há gratidão pelo que foram e são
e não há julgamento por suas decisões
meu lamento é acompanhado de compreensão

suicidas são egoístas?
o que somos nós então quando queremos
ao nosso lado
pessoas dilaceradas
que não conseguem mais seguir?
temos o direito de querer, de pedir
que alguém passe décadas de dor viva
para nós não vivermos um luto?

eu sei que não tenho esse direito
e com essa consciência, eu deixo ir
quero quem amo vivo para que possa
se possível
ser feliz
não quero que ninguém viva por mim

o amor que tiveram por mim
me manteve viva também
vezes demais foi apenas pensar nos outros
que me impediu de dar o passo final
the final cut

hoje todavia sigo por mim
é a mim que devo a chance
desta nova vida
em que seguir é possível
e bom

eu amo, honro e abençoo
meus mortos e minhas mortes
honro os ecos feridos de meus ancestrais
porém meu pacto atual
é com a vida
novamente, todo dia
eu escolho viver.

*o título do poema foi retirado da música Ancestors, the ancients, de Chelsea Wolfe

sábado, 9 de junho de 2018

sobrevivência

o capitalismo existe, infelizmente
e já que existe tangível
e cobra sua materialidade
às custas de nossa carne
a resistência passa pelo corpo

descosturemos nossos lábios
e bocas silenciadas
encher o pulmão de ar para clarear as ideias
e também para gritar

costurar laços de solidariedade
real
uma jovem mulher suicidou-se
e as aulas no prédio fatídico
foram mantidas no dia seguinte
a única resposta aceitável para isso
seria a via da ação direta
incendiar a reitoria
mas eu tenho, nós temos
medo

a miríade de acúmulos de catástrofes
que, por vezes, chamamos de capitalismo neoliberal
pode ser quantificada com uma série de números
há porém diversas tragédias anônimas
toda prisão é política
e, ao meu ver, todo suicídio também
não estamos no vácuo
o social nos perpassa
e frequentemente nos mata
no plano simbólico
ou um corpo no chão

Elly, presente
Maria Beatriz, presente
Gabriel Mosna, presente
Ariadne, presente
e também eu estou presente
a despeito das feridas
sigo e permaneço viva e combativa
pois o ódio que sinto pelo sistema
e aos que dele se beneficiam
sem sentirem nenhum pesar
este meu ódio é a expressão política do meu amor
pelas pessoas, pela natureza, por mim mesma

no solo árido de um capitalismo assassino, capataz,
cruel, algoz
existem sementes de revolta
não joguemos agrotóxicos
não precisamos do glifosato
ou benzoato de emamectina

adubemos nosaas sementes de ódio, revolta e revolução
com o amor contra-hegemônico
de quem sabe que outro mundo é possível
um mundo verdadeiramente humano
em que caibam muitos outros mundos
que cada lágrima de quem luta
irrigue este solo
e que a esperança brote e floresça
em nós que ainda estamos
por aqui

eu quero menos suicídios
e mais molotovs.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

herança

28.01.2018

eu não herdei os cabelos de minha mãe
eles eram cacheados e escuros
os meus são levemente ondulados
e loiro escuro, ou castanho claro

eu não herdei os olhos de minha mãe
nem o nariz
nem os dentes
nem o queixo
nem as mãos

nem o formato dos pés
mas consigo perceber que os meus
tais como os dela
são secos
quando brigávamos, sempre ouvi
"quando foges de mim, eu sou teus pés"
queria ela dizer que ao negá-la
ela ainda estaria em mim
e está, de fato
na secura da sola dos meus pés
que caminham para frente
sem ela
meus pés mais estreitos que os dela
que exibem a origem goiana do pé rachado
secos também meus olhos
após tantas lágrimas

tenho as panturrilhas dela
as escápulas saltadas
de meu pai
dizia minha mãe que eu andava
igual a ele
se verdade, surpreende
pois em 18 anos, eu o vi umas três vezes

eu tenho dificuldade de olhar no meu corpo
minhas origens
tenho dificuldade de ver
o corpo da minha mãe no meu
e machuca
e tenho dificuldade de saber
sequer como é o corpo de meu pai
e irrita
saber quão fácil é a paternidade
posto que tantas vezes não existe

eu não sei como é ter pai
mas sei que às vezes isso é ainda melhor que ter
e minha mãe, mesmo viva,
foi uma das maiores dores da minha vida
lua em câncer conjunta a marte

eu sou muito amada e sei
por pessoas que não compartilham meu sangue
e valorizo a cada uma delas
porém, ao final do dia
ao cair de algumas noites sinto falta de
que houvesse uma forma de doer menos
não ter pais
e acima de tudo, ter perdido mamãe

aquela pergunta de qual refeição escolheria
para ser minha última
seria pipoca
e é pura e simplesmente porque me lembra
a época em que eu e minha mãe passávamos as tardes
lendo e comendo pipoca
e tomando chá mate

eu fui uma criança muito amada
e muito destroçada
e sou uma jovem adulta muito amada
com muitos destroços para cuidar, e cuido
eu quero mesmo ser feliz
mas para isso preciso acolher

todas as metades que me foram tiradas.  

domingo, 28 de janeiro de 2018

o amor não pode ser outra coisa que não livre*

para L.H.

"acompanhe o pássaro
mas não atrapalhe o voo
não tente olhar com as mãos
ficar perto requer outros dons"**

olhar para uma flor
e desejá-la
e mesmo amá-la
e não podar
apaixonar-se pelas asas de alguém
e prometer a si jamais cortar***

aprender a amar sem podar
sem pudor e sem poder também
aprender a cultivar com água
mas nas emoções benditas que fluem
não afogar o cacto por excesso de zelo
não deixar o solo seco

não fomos criadas, nós
pessoas, nós mulher
para amar com liberdade
a liberdade de uma mulher afronta
um homem a ponto de ser fator de risco
e para nós,
o amor é cooptado para transformar devoção
em servidão
transformar cuidado
em martírio
e auto-anulação

reiventar os amores
como não fomos ensinadas a fazer
como eu não fui ensinada a fazer
ninguém nunca me disse que eu poderia amar uma mulher
ninguém nunca me disse que eu poderia amar mais de uma pessoa
eu fui desobedecendo como pude

eu amo como uma mulher
eu frequentemente amo muito mais
do que amo a mim
e isso adoece, e eu renuncio
e respiro pra deixar sair

e permanecer em mim e nela
apenas o que nutre a terra
em vez de secá-la.


*paráfrase da frase da anarca-feminista Emma Goldman: "Amor livre? Como se o amor pudesse ser outra coisa que não livre!"

**música Letuce - Binóculos


***paráfrase de Carlos Miguel Cortés, "Y una cosa puedo jurar, yo que me enamore de tus alas, jamás te las voy a querer cortar”