sexta-feira, 30 de setembro de 2016

escuro

29.09.16

eu estou me esforçando
mas pareço nunca conseguir sair
desse lamaçal escuro de dor
esse lodo estranho
e anti-humano
que é a depressão

estou me esforçando
para aprender a nadar sem me afogar
a dançar no escuro
e a saber pedir velas
quando beira o insustentável
nessa noite escura da alma
que parece interminável

"a gente ama feito a Frida Kahlo
e morre feito o Elliott Smith"*
estou tentando não morrer
estou tentando não morrer
eu juro
por favor,
acredite em mim

a maior parte das pessoas
não se dá conta
da grande conquista que é sobreviver
parece algo indigno de nota ou aplauso
algo dado, óbvio, nada a ser parabenizado
pensar isso é coisa
de quem nunca quis muito
muito
morrer
pois então sobreviver se torna vitória, sim

abrir os olhos, viva
ainda que se tenha dormido pessimamente
tomar banho
comer algo, nem que seja miojo
talvez lavar louça
como alguém pode se orgulhar disso?
bem, eu posso
alguém que já odiou cada batida do próprio coração
por ser sinal da permanência da vida
alguém que já quis chorar toda manhã
e amaldiçoou seus dias
por continuarem vindo
um após o outro
um após o outro

eu ainda queria queimar certas memórias
que tanto pesam no meu corpo
nos meus olhos

"a responsabilidade é um golpe do meu inconsciente
para me manter viva.
as pessoas, elas não sabem
como é ser triste
elas mal aguentam estar tristes."**

vez ou outra escuto que sou alegre
não é mentira
quando estou bem, a alegria é proporcional
a saber quanto custou-me estar ali, viva
e abraço e amo meus amigos
e ao Sol, a Lua, as estrelas
Madre Tierra em toda sua grandeza
sorrio como sobrevivente que sou
é isso é muito poderoso
ainda que eu o saiba
frágil
ainda que eu me saiba
frágil

a vida é um presente do Universo
que eu não sei muito bem como lidar
mas eu juro, hoje
apesar de tudo, tudo
é um presente que não estou tentando devolver
é um presente que estou tentando levar
até o fim

(eu não acho que precisava ser assim
sermos forjadas pela dor
pessoas como eu
quebram
ainda assim
estou buscando seguir)



*paráfrase de Vitor Brauer - Amor e Morte http://vitorbrauer.bandcamp.com/track/amor-e-morte
**Patricia Nardelli - Saiwalô https://patricianardelli.wordpress.com/2013/07/18/espantalho/

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

"você é uma sobrevivente do caralho"

para Luana e Louis, que também o são
para Aninha, que me entende obscuramente
e para Laravilhosa, por tanto amor de graça

o dano ficou mesmo sem intenção
percebe a fragilidade das coisas?
todo cuidado é pouco

ontem bêbada deixei minha caneta cair
debaixo da porta da sacada da casa
do meu amigo
na ânsia de tirá-la, enfiei ela mais pra dentro da porta
fora do alcance de meus dedos
ao final da noite pedi ajuda para pegar
e ele conseguiu fazer isso em poucos segundos
e é com ela que escrevo esse poema agora
esses fragmentos soltos, retalhos
de pensamentos

dormi mal a semana toda, exceto ontem
bendito e maldito é ocupar minha própria pele
sagrado ofício, intransferível
e tão doloroso

sou multiforme
multifacetada, lapidada na dor e no riso
densa como água escura, doce como água gelada
sinuosa como são os rios
mar adentro, vida afora
vida aflora
escorrendo pelos poros

e eu que tenho a memória
congestionada e parcialmente arruinada
pela depressão
lembro-me das roupas que usávamos
na primeira vez em que saí com ele
detalhe trivial que só comprova que
"A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu;
e ela não perderá o que merece ser salvo."
- Eduardo Galeano

"E é isso que quero: partilhar nosso tempo, embora nosso tempo
seja feito
de silêncios a anônimos
(...)
Sonho dobrar uma página dessas vozes todas. Todas minhas.
Sonho dobrar essas vidas de vozes que choram."
- Vítor Brauer - Dobrar (part. Marcelo Diniz)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

navegar

19.09.16

tire o medo do caminho que eu vou passar com meu amor
segurar firme a mão do outro e pular
no abissal desconhecido
universo alheio
tire os calçados e deixe na porta de entrada
pise com cuidado ao entrar noutra alma

acenda uma vela pr'Oxum
talvez nem careça de perguntar pra sua orixá
se amor só é bom se doer
bom mesmo é viver
saúde a gente constrói
é no cotidiano convívio
e na confiança íntima, contínua, tácita
saúde no amor é dádiva

segurar firme a mão do outro e pular
respirar fundo e caminhar
(ou pedalar)
inspirar e expirar e sentir o gosto
o cheiro, o tato
a memória que outro corpo carrega
reciprocidade explícita é dádiva
tentativas que florescem e frutificam
fluem, nutrem
a alma

amar e permitir ser amada
ser amada e permitir amar
chorar lágrimas salgadas e aceitar
que estar perto exige encarar
os pedaços nossos que gostaríamos de negar
reuni-los e cantar uma canção
que una todos os ossos cansados
costurar os fragmentos de si soltos pela estrada
"desenha minha vida na tua"
borda meu caminho no teu

se as ondas escuras ameaçarem me tragar
sou sereia e vim de uma ilha
(ele também)
e nado furiosamente para não me afogar
posso mergulhar no mar escuro
se for para emergir maior
mais sã, mais inteira
pulsante
posso até aprender a surfar
importante é sobreviver
o melhor possível

fechar os olhos e sentir em cada poro
paixão
vibrante
sentir com consciência o quanto custa
o mero ser
e apesar de tudo isso
honrar as partes minhas em ti
e as tuas em mim
ousar viver o novo
e puxar pra mais um beijo
com gosto de lua e memória de mar.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Que é escuro e frio mas também bonito

para Filemon e Luísa Brandão
e para Gabriel que foi cantar noutro lugar

- Sabe - ela disse, aproximando-se da vela acesa -, cometi demais já o erro de achar que o amor me salvaria da depressão, essa interminável noite escura da alma. É um erro que não preciso cometer mais.

Assoprou a vela.

Escuridão.

Outras velas, outros quartos, outros templos, outros amores, outras vidas.

Sempre existe luz.

E sempre existe o terror da noite.

Estamos tentando aprender a arte de dançar no escuro.

domingo, 4 de setembro de 2016

sobre viver

A loucura é o que restou do que tentaram me tirar
a minha voz dissonante fustigada pela cidade
grita o que me roubaram
e eu exijo: devolvam
quem eu podia ser
mas não fui

Não fui aquela lá
fui isso aqui
basta para alguém?
bastará para mim
farei bastar
custe o que custar
honrarei estar na minha pele
e não de outrem

Se tenho CID, ainda exijo
no meu espaço-tempo
viver como escolhi
e ser quem ousei ser
e insurgir e romper e traçar
para chegar do outro lado
e ser quem quero me tornar

Minha mãe foi tipo elefante:
foi para perto da cidade natal
para morrer
pelas próprias mãos
suicídio não é poesia
poesia é o que me resta
para lidar
com o que sobrou
com o posterior

Do alto do precipício forjado
em busca de sanidade
nos moldes dos outros
sou aquela que quer findar diferente
do que o que tentaram me fazer ser
contemplo o abismo e não pulo
voo para o outro lado
escolho outro caminho:
o meu.