domingo, 10 de julho de 2016

Por Amrit Brar, via http://musterni-illustrates.tumblr.com

quinta-feira, 7 de julho de 2016

lua em câncer

se sinto demais
demais para quem?
a mim basta
por vezes transborda
vale a pena transcender a margem?

se sinto muito, consigo
auxiliar outrem a sentir mais
se amo tanto, permito
a quem tem amarras
ser amada e amar

se dói tanto, sinto
a ambivalência da empatia
conectar-se com o sentir leva a consciência
e a consciência da luz e acima de tudo da sombra
liberta
quando estabelecemos nossos próprios caminhos
da forma certa

para dentro é escuro
e é contudo onde realmente está a paz
buscando a fundo achei muita tralha
muitos estilhaços de mágoa na carne fraca

no final
se o amor é a maior medicina
disso estou sempre cheia
e transbordo não só de lágrimas
mas também de afeto pelas mãos, olhos
palavras
e assim sigo ora trôpega ora confiante como O Louco
porém seguindo pulsante já é muito
e mais do que suficiente.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

ligando os pontos

não há como ser uma conexão real entre duas pessoas
e só uma delas ter sentido
conectar-se a algo
pressupõe, entre almas,
uma dose mínima
de afeto mútuo
ainda que tácito
apaixonar-se pesa demais
quando feito por só um lado
só um lado não forma um laço
só nó

pode até ser amor
não será, contudo, conexão
se é unilateral

a entrega total
exige devoção
e um tipo de cuidado
que só funciona
se oferecido de bom grado
do contrário
é auto-engano
e hemorragia verborrágica vã

quinta-feira, 23 de junho de 2016

catando os cacos

para Beatriz, que me inspira e a quem me conecto
para ela que carrega o mesmo nome da minha mãe 
mas diferentemente dela, tem conseguido com maestria permanecer viva

o suicídio é minha cicatriz indelével
são hesitation wounds 
profundamente gravados na minha pele 
e na minha carne
ainda que invisíveis 

e pessoas que não se sentem assim
simplesmente não entendem 
curioso eu já ter ouvido que parecia alegre
que não parecia depressiva 

não é mentira
mas também não é muito verdade 

eu tenho olhos cansados
e um coração cheio de amor 
eu tenho esperanças gastas 
e outras tantas renovadas 

eu carrego minha cicatrizes 
eu sei muito bem o quanto sou pesada 

eu não devo minha vida a ninguém 
ela pertence a mim
apossando-me dela, hoje quero viver 
é pesado, sim, existir
eu o sei bem demais 
eu passei tempo demais tolerando mal a vida
na ânsia de poder sumir um dia 

e eu sumirei um dia 
não hoje, porém 
hoje recolho a bagunça pelo quarto 
e as mágoas peso tristeza melancolia angústia desespero saudade
traumas 
saudade de uma casa que nunca foi minha 
hoje escolho recolher todos esses cacos 
e criar algo pra fora
que expresse a ambivalência de dentro 
sem contudo eu ser uma poetisa suicida

estou tentando ser uma poetisa viva.

sábado, 4 de junho de 2016

estado de natureza

um corpo que cai
ossos que quebram
pulmões cheios d'água
olhos também
gastrite nervosa
dentes rangendo
cabelos caindo
fôlego curto

dormir pra esquecer
dormir pra tentar esquecer
dormir pra ensaiar morrer

boca seca
vícios clandestinos
medo de se importar
medo de ser tocado
medo de amar

um emprego sem graça
uma graduação frustrada
falta de tempo
interações automáticas
saúde em segundo plano
mas culpa em primeiro
orar sem ter fé
descrer por ter ódio
livros não lidos
filmes mal assistidos

pedaços por toda parte
uma tonelada de saudades
buscas incessantes
e o eterno retorno ao vazio
velho conhecido
de quando o fado de viver
se torna abissalmente excessivo.

domingo, 29 de maio de 2016

Aos pedaços

Eu perdi um amigo e então se abrem
as feridas antigas
as feridas do que restou do que sou

Eu perdi um amigo e agora acabou
de novo
a chance
de recomeço
eu perdi um amigo e não sei lidar
eu perdi minha mãe e achei que isso fosse me matar

Noites insones e o pesadelo era real
ela havia tirado a própria vida e não havia nada, nada
capaz de salvar

E agora o que faço do que restou
o que fazer com todos os pedaços
com todos os machucados
o que fazer num mundo tão hostil e cruel
que jamais cessa de mutilar
um coração já tão pesado

E o que faço agora com todos esses pedaços
dele, dela
de quem ficou e foi
o que faço com as metades arrancadas
prematuramente do coração de quem os amava

O que faço eu com todos esses pedaços de mágoa
com esses estilhaços de carne pesada
o que fazer com todas as partes fragmentadas
o que fazer de uma existência retalhada

O que fazer de si
para que imersos no caos abissal de sentir
ainda seja possível estar aqui
para que pareça viável seguir
para que possamos seguir

O que fazer da vida
que não seja morte
o que fazer da vida
para que não seja morte
para que se finde de forma diferente

O que fazer da vida e morte
para não sermos os próximos
para que não haja próximos
para que descansar nao exija cessar de viver

O que fazer da vida
para ela parecer digna de ser vivida
e não um entrave no caminho para os braços da morte

O que fazer da minha vida
para conseguir continuar viva
mais dias
apesar
do pesar
de pesar
e rasgar.

A um amigo suicida

sexta, 27 de maio de 2016

A um amigo suicida

Não tenho nenhuma raiva
Não tenho nenhuma mágoa
Querido amigo

Não tenho a pretensão
De dizer que compreendi sua dor
Rasgando
Partindo
Ao meio
Estilhaçando pedaços de alma

O que tenho é amor
Para dizer
Queria que você tivesse sobrevivido
Queria que você
Estivesse aqui
Comigo, com elas
Eles, nosotros
Queria que você
Estivesse vivo
Cantando, sentindo
Respirando, abrindo
O caminho não traçado
Que levaria ao verdadeiro lar
Para que apesar de tudo
 Você não se sentisse despedaçado

Eu queria que você acordasse amanhã
Talvez ainda triste, rasgado
Contudo, acordado
E então, querido amigo
Todos os abraços
E apoio
Toda forma de amor
Direcionaríamos a ti
Para que você pudesse seguir

E acordando ferido
Porém cercado de carinho
Você pudesse compreender
Na prática
Que passa
A dor passa
O desespero passa
O desamparo passa
A negação passa
A tristeza passa
Sim
Se seguir
Se seguir

Hoje você não está aqui
E te envio meu amor
Para que na hora de voltar
Você saiba
Que apesar de tudo
Você tem o direito de estar aqui
Inclusive, sendo feliz

Daqui deste lado
Envio amor a ti
Envio amor a ti
Envio amor a ti.