domingo, 21 de julho de 2013

amor livre é pleonasmo

acho que meu tipo de amor preferido
acho que o paradigma que realmente acredito e sigo
é o de querer bem mais do que querer para si

sobre existir

não sei exatamente quem sou
e isso me deixa feliz
parece-me que a existência de fato precede a essência
e sagrada seja a reinvenção de si
bendita a possibilidade
de recomeços incessantes

são bem-vindas as dúvidas
quero a verdade, e não a convicção estagnada
quero a verdade, não a absoluta
mas a que é real exatamente por ser circunstancial
quero a verdade, não só por capricho pessoal
mas porque verdadeiramente livre é quem liberta

e todxs deveriam poder
ser
e só

e viver e amar e crescer e cuidar 
e construir e reconstruir 
e desistir e recomeçar
e chorar e se arrepender
e gritar e respirar fundo
e sentir o peso do luto 
e a leveza da consciência do transitório
e a ir embora e voltar
para os braços de si mesmx
e sentir a dor e o pesar
e sentir-se faltar
sentir-se falhar

e no entanto apesar de todos os contratempos 
nosso corpo semi-alienado insiste em continuar
com todas as somatizações, o corpo insiste em sobreviver
e a despeito da vontade de enfiar uma faca num coração que insiste em bater
a despeito da vontade de enfiar uma faca num coração que insiste em doer
ele prossegue sem sossego
com sua sístole e diástole 
e o amor pode ser catástrofe
contudo ainda há o livre-arbítrio
a amplitude revolucionária de escolher
ser.



quinta-feira, 18 de julho de 2013

Voo

Cassandra acendeu um cigarro e se sentou no parapeito da sacada. Era um dia nublado. Cassandra tragou profundamente como se a fumaça pudesse preenchê-la, e soltou bem devagar. Cassandra lembrou-se de coisas. Olhou pra baixo.

Cassandra sentia-se pesada e exausta. Cassandra pensou "Por quantas vezes eu terei de profetizar minha tragédia?". Cassandra pensou:
"E se"
"E se"
"E se"
E Cassandra subiu no parapeito e olhou pra baixo, e pensou em pular.
Pensou em como seria cair por treze andares. Pensou no quanto doeria ao seu corpo chocar-se contra o chão. Pensou se a existência realmente cessa no instante que morremos, ou se existe algo imaterial que sobrevive. Pensou em como seria o mundo sem ela. Pensou nxs que sentiriam sua falta.


Por tantas vezes Cassandra havia chegado naquele ponto, de tantas formas.

E daquela vez Cassandra pulou.

E voou.


Cassandra descobriu que existe vida para além de se sentir miserável.

Cassandra descobriu que existe força na solidão.

Cassandra descobriu que mesmo as experiências mais insuportavelmente dolorosas de uma vida contém algum aprendizado.

Cassandra descobriu que sempre existe um caminho, e que traçá-lo cabe tão-somente a cada indivídux.

Cassandra descobriu que sempre é possível interromper o processo, mas que sempre é possível continuar e transcender o momento.

Cassandra ouviu King's Crossing e entendeu como sempre cada verso. Cassandra jamais acharia que Elliott Smith era alguém fora de si, alguém a ser internado, alguém que não estava se esforçando o bastante, alguém que havia entendido a vida errado.

Porque afinal, de dor, Cassandra entendia.

E ao voar, percebeu que entendia de sobreviver também.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

meds II

não foi uma epifania
estava mais pra overdose

não foi uma enxurrada de certezas nem dúvidas
talvez de fármacos

isso não é nenhuma promessa
é tão transitório quanto tudo é na vida

mas isso não é um adeus
é uma saudação
seja bem-vinda, paz de espírito
me ajude a encontrar quem eu sou.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

impotência

não posso ajudá-lo
não posso apontar um caminho
o máximo que pude fazer
foi sair do caminho
e desejar bem a ele
eu não posso oferecer esse bem a ele
eu não posso oferecer esse bem a ninguém
felizmente já não esperam isso
esperam de mim que eu continue
e eu espero da vida que ela cesse logo.

terça-feira, 9 de julho de 2013

rodeios

tenho fotos belíssimas
que não posso mostrar para quase ninguém

tenho sentimentos puros
que insistem em me arruinar

quero um amor abnegado
mas sou demasiado humana

quero voar
mas permaneço presa ao chão

quero partir
mas algo me detém
olho e procuro esse algo
a fim de que me guie
nunca o encontrei
achei que havia
mas nunca perdurou

às vezes só seguir basta
noutras não.

às vezes qualquer coisa supre
mas nem sempre.

"perder-se também é caminho", dizem
mergulhar no abismo também.

Florianópolis e saudade

Eu me lembrava de Florianópolis sempre como uma cidade fria e nublada. Voltei recentemente e vi que não era meu cérebro falseando coisas: realmente, faz muito frio e céu cinzento.

E agora não é ela quem me faz mingau de aveia; sou eu mesma. Com leite de soja.

Suspiro.

Hoje consigo aceitar que minha mãe se foi. Não é uma constatação fácil. Dói, muito.

Mas aceitei. Aceitei a morte como uma verdade esmagadora, inexorável e material.

E essa casa em que cresci não tem mais nossos livros. E tem pessoas mas não tem seu sorriso. E não tem nossos desenhos. E não tem nossa sintonia.

Nessas horas é difícil ser agnóstica, porque eu não sinto a presença dela. Há um mês, eu visitei seu túmulo. Foi a primeira vez que fui só. Eu estava péssima. Tinha vendido cupcakes na UnB, estava tentando ser produtiva, essas coisas. E simplesmente desabei. Eu achei que decidir que eu queria ficar bem seria um primeiro passo decisivo rumo a isso. Não que isso fosse uma panacéia - panacéias não existem -, mas um começo. "Os começos são sempre humildes."

E naquele dia desabei, depois de ter vendido quase todos os cupcakes. Comprei um chá. Procurei um lugar isolado no Minhocão. Comecei a chorar e escrever.

"Se viver é isso, eu passo."

Fui então ao cemitério. Sabia aproximadamente o local do túmulo, embora não soubesse o código. Procurei, achei. Deitei no túmulo. No chão, com a cabeça na lápide. E chorei. Muito.

Lembro-me de ter olhado pro céu e dito "Deus, se você existe, me ajude, porque eu não aguento mais."
Lembro-me também de ter, ali, deitada no chão, pensado que eu só tinha ido até lá por puro misticismo ocidental. Não me senti, ali sobre o túmulo, nem um pouco mais próxima da minha mãe. Eu estava meramente sobre os restos mortais dela. A matéria. O corpo em decomposição da mulher que foi minha mãe por 54 anos. Mas o espírito?

Acho que não há nenhum espírito, no final.

"Nuestra auto-identidad está profundamente tejida con la piel y la sangre de los otros, y es por eso que, cuando alguien próximo muere (sea o no por suicidio), se lleva una parte de “nosotros mismos”. Así, cuando alguien se suicida, nunca se mata tan sólo a “sí mismo”,o, mejor dicho, mata precisamente a ese “sí mismo” en donde ya está, desde siempre, el otro." ("Nossa auto-identidade está profundamente tecida com a pele e o sangue dos outros, e é por isso que, quando alguém próximo morre (seja ou não por suicídio), leva uma parte de "nós mesmos." Assim, quando alguém se suicida, nunca se mata tão somente "a si mesmo", ou, melhor dizendo, mata precisamente a esse "si mesmo" onde já está, desde sempre, o outro.")

Eu acho esse fragmento belíssimo e muito real.

Ela se suicidou. Ela matou a si. E me matou um pouco junto, disso não tenho nenhuma dúvida.

E, simultaneamente, se algo dela sobreviveu, isso também vive em mim.

Enquanto eu viver, e eu não faço idéia do quanto isso será.

E assim como quando eu morrer, não morrerão as partes minhas que já estão em outrxs.

Espero que essas partes não doam tanto em vocês quanto doem em mim.