pré-requisitos para um amor:
que respeite minhas lágrimas
e sensibilidade
sabendo que são a outra face da minha poesia
a outra face do meu amor pela vida
são parte do meu lado escuro da lua
quem amar o claro
deve aprender a amá-las também
dissociar seria violência simbólica
contra mim
sou inteira
não preciso de ninguém
que só me queira às metades
em pedaços
doses homeopáticas
de meu bem querer
amar mais que ser amado
é um preceito para a vida
mas amar a mim mesma
não pode coexistir com murro em ponta de faca
querendo o que não se pode ter
amar é deixar ir
e saber a hora
de fazer as malas e ir embora
em vez de sentar na cama e chorar
que eu chore nos meus próprios braços
porque se quero eternidade
que eu me firme no que sempre
estará dentro de mim
que eu viaje para dentro
porque buscar ao redor
é uma caminhada fadada ao fracasso
o apego é uma ilusão do ego
destinada ao insucesso
ao perceber-se que
tudo
é
transitório
se todos os fenômenos são vazios
como diz o Sutra do coração,
que eu faça meu coração vibrar
e ressignifique tudo para que vibre em paz.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Agudamente
- Sabe - ela disse, sorvendo um pouco de café -, eu não diria que "as pessoas" são boas nem que "as pessoas" ruins. Porque isso é muito vago. Mas eu diria que as pessoas se esforçam.
- Esforçam em quê? - ele disse, erguendo uma sobrancelha.
- Em sobreviver. Elas tentam, sabem, cada uma à sua maneira. - ela explicou, encolhendo os ombros.
- E ferem umas as outras no processo.
- Certamente que sim, mas não estou dizendo que isso justifique. Não acho que sobreviver se torne desculpa pra tatear às cegas sem se importar com as consequências dos seus atos. Justamente, viver demanda responsabilidade. Sobreviver demanda consciência.
- Eu concordo contigo - disse ele, gentil -, mas me surpreende que você gaste tanto tempo pensando em algo que pra maior parte das pessoas é tão automático quanto respirar.
- Como assim? - intrigou-se ela.
- Sobreviver... você realmente acha que a maior parte das pessoas filosofa tanto assim sobre isso?
- Sinceramente, eu acho - ela insistiu, parecendo um pouco agitada -. Não que elas necessariamente tenham consciência disso. Não sei se podemos chamar de "filosofar" em todos os casos. Mas acho que todo mundo tem uma pequena, ou enorme, angústia, dúvida, inquietação, dor, etc. etc., que adquire dimensões e formatos singulares pra cada um. Tolstói já dizia que "se existem tantas cabeças quanto são as formas de pensarem, há de haver tantos tipos de amor quanto são os corações". Acho que isso também vale para o fato de que cada um encontra uma forma de seguir. Pra alguns, filosofar de uma maneira deliberada sobre a vida poderia virar desespero, mas pode simplesmente virar alguma coisa muito preciosa que a gente tenta esconder por ser íntima demais.
- Como a arte? - ele sorriu.
- Como qualquer coisa, qualquer coisa que sirva. Contanto que não fira os outros.
- Sabe - o sorriso dele alargou-se -, eu gosto do seu jeito agudo de sentir as coisas.
- Então você já gosta de uma parte enorme de mim - ela disse, rindo, parecendo mais leve.
- Gosto, sim.
- Também gosto de ti. Talvez agudamente. - ela alertou.
- Tudo bem. Eu aceito.
- Obrigada.
- Não agradeça. Só chega mais perto.
- Chego.
- Esforçam em quê? - ele disse, erguendo uma sobrancelha.
- Em sobreviver. Elas tentam, sabem, cada uma à sua maneira. - ela explicou, encolhendo os ombros.
- E ferem umas as outras no processo.
- Certamente que sim, mas não estou dizendo que isso justifique. Não acho que sobreviver se torne desculpa pra tatear às cegas sem se importar com as consequências dos seus atos. Justamente, viver demanda responsabilidade. Sobreviver demanda consciência.
- Eu concordo contigo - disse ele, gentil -, mas me surpreende que você gaste tanto tempo pensando em algo que pra maior parte das pessoas é tão automático quanto respirar.
- Como assim? - intrigou-se ela.
- Sobreviver... você realmente acha que a maior parte das pessoas filosofa tanto assim sobre isso?
- Sinceramente, eu acho - ela insistiu, parecendo um pouco agitada -. Não que elas necessariamente tenham consciência disso. Não sei se podemos chamar de "filosofar" em todos os casos. Mas acho que todo mundo tem uma pequena, ou enorme, angústia, dúvida, inquietação, dor, etc. etc., que adquire dimensões e formatos singulares pra cada um. Tolstói já dizia que "se existem tantas cabeças quanto são as formas de pensarem, há de haver tantos tipos de amor quanto são os corações". Acho que isso também vale para o fato de que cada um encontra uma forma de seguir. Pra alguns, filosofar de uma maneira deliberada sobre a vida poderia virar desespero, mas pode simplesmente virar alguma coisa muito preciosa que a gente tenta esconder por ser íntima demais.
- Como a arte? - ele sorriu.
- Como qualquer coisa, qualquer coisa que sirva. Contanto que não fira os outros.
- Sabe - o sorriso dele alargou-se -, eu gosto do seu jeito agudo de sentir as coisas.
- Então você já gosta de uma parte enorme de mim - ela disse, rindo, parecendo mais leve.
- Gosto, sim.
- Também gosto de ti. Talvez agudamente. - ela alertou.
- Tudo bem. Eu aceito.
- Obrigada.
- Não agradeça. Só chega mais perto.
- Chego.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
de longe
beije-me
com a doçura
de quem se importa
com minhas chagas
e não apenas deseja meus lábios
abrace-me
com respeito pela minha história
e compaixão pelos meus débitos
aceite-me
na medida que sou e ame-me
na medida em que és
não peço mais
mas se não quiseres nada disso
eu compreendo
e respeito
te amo de longe
e te amo pra dentro
se preferes
disfarço por fora.
com a doçura
de quem se importa
com minhas chagas
e não apenas deseja meus lábios
abrace-me
com respeito pela minha história
e compaixão pelos meus débitos
aceite-me
na medida que sou e ame-me
na medida em que és
não peço mais
mas se não quiseres nada disso
eu compreendo
e respeito
te amo de longe
e te amo pra dentro
se preferes
disfarço por fora.
terça-feira, 22 de abril de 2014
apego
"...you scream so well
you smile so loud
it still rings
in my ears..."
as pessoas
desenvolvem formas
jeitos
técnicas
de pararem
de amar
alguém
eu nunca
soube fazer
isso;
se escrevo
não é pra fazê-lo tampouco:
há um ano
escrevo aqui sobre o quanto o amo
se escrevo
é porque não devo
alugar os ouvidos de meus amigos
e dele próprio
sobre essa miríade de apego aqui
se escrevo
é pela veleidade de transformar esse apego
em - para corações gentis que ousem
considerar-me assim -
arte
se escrevo
é porque não sei deixar ir
ainda que queira e decida
meu coração recusa-se
e se mantém ali
preso
a quem nem mais o quer
se escrevo
é para que desta fraqueza
eu extraia força
eu organize meus pensamentos
e analise meus sentimentos
de forma a ancorar-me no que o amor
tem de forte belo divino incrível
sagrado
e re-ge-ne-ra-dor
se escrevo é porque quero ser livre e feliz
e às vezes até consigo
mas nem todo dia
e definitivamente,
em nem toda noite.
you smile so loud
it still rings
in my ears..."
as pessoas
desenvolvem formas
jeitos
técnicas
de pararem
de amar
alguém
eu nunca
soube fazer
isso;
se escrevo
não é pra fazê-lo tampouco:
há um ano
escrevo aqui sobre o quanto o amo
se escrevo
é porque não devo
alugar os ouvidos de meus amigos
e dele próprio
sobre essa miríade de apego aqui
se escrevo
é pela veleidade de transformar esse apego
em - para corações gentis que ousem
considerar-me assim -
arte
se escrevo
é porque não sei deixar ir
ainda que queira e decida
meu coração recusa-se
e se mantém ali
preso
a quem nem mais o quer
se escrevo
é para que desta fraqueza
eu extraia força
eu organize meus pensamentos
e analise meus sentimentos
de forma a ancorar-me no que o amor
tem de forte belo divino incrível
sagrado
e re-ge-ne-ra-dor
se escrevo é porque quero ser livre e feliz
e às vezes até consigo
mas nem todo dia
e definitivamente,
em nem toda noite.
sábado, 19 de abril de 2014
viver é criar
contemplo o chão
mas caminho sobre ele
em vez de me jogar
ou tombar nele
contemplo o sol
e deixo-o aquecer minha pele
clara mas nem tão sensível
a ponto dele queimá-la
aquece apenas
e na grama sob o sol sinto-me em casa
contemplo o abismo
e extraio dele criação
extraio poesias
sons
e compaixão
porém desta vez não mergulho
além do necessário
há de se traçar uma linha
entre o artista que sangra
e o que morre de hemorragia
ambos valem muito
mas um não cria mais
e eu quero criar
e viver
e amar
e cuidar
e ser
e sorrir
e sentir
e vibrar
e sangrar
e recomeçar
mais uma vez
e outra, e outra, e outra, e outra.
mas caminho sobre ele
em vez de me jogar
ou tombar nele
contemplo o sol
e deixo-o aquecer minha pele
clara mas nem tão sensível
a ponto dele queimá-la
aquece apenas
e na grama sob o sol sinto-me em casa
contemplo o abismo
e extraio dele criação
extraio poesias
sons
e compaixão
porém desta vez não mergulho
além do necessário
há de se traçar uma linha
entre o artista que sangra
e o que morre de hemorragia
ambos valem muito
mas um não cria mais
e eu quero criar
e viver
e amar
e cuidar
e ser
e sorrir
e sentir
e vibrar
e sangrar
e recomeçar
mais uma vez
e outra, e outra, e outra, e outra.
na natureza selvagem - música
transformei um poema meu em som.
https://www.facebook.com/photo.php?v=658722890842378&l=8672003423203269074
há um lugar em algum mundo
em que a natureza é ainda mais bela
há montanhas e lagos
e o leão e o cordeiro pastam juntos
sem serem mortos pelo homem
há um lugar em outro mundo
em que a harmonia reina
onde jamais chegará a chaga da civilização
que rima com dizimação da gente da terra
e do reino dos bichos e dos animais
há um lugar em outro mundo
na natureza selvagem
na sua face de compassivo equilíbrio idílico* (esqueci de cantar esse trecho)
onde eu talvez pudesse descansar
e entregar meu corpo a ela
devolvê-lo a mãe terra
e ela o cobriria com suavidade maternal
e ancestral
esse lugar existe em meus sonhos
de olhos abertos
(ora marejados)
mas eu não posso ir para lá agora
seria violar as leis dessa mãe terra
mas lua após lua
e aurora após aurora
aproximo-me inexoravelmente dela
e estando aqui por ora me cabe laborar
"ter firmeza é ter amor"
e isso me sobra
até escorrer pelos olhos
me resta seguir
a caminhada solitária
nas aspirações mais nobres
como trabalhar pela libertação de todos os seres
(inclusive em minha própria)
ou ao menos tentar ser
o tipo de pessoa que alguém gostaria de conhecer num mau dia
minhas pernas bambas de cansaço
insisto em fazê-las caminhar
para que quando terminar
o dia derradeiro
eu possa orgulhar-me do meu saldo
devidamente arrependida e retificada
dos débitos
https://www.facebook.com/photo.php?v=658722890842378&l=8672003423203269074
há um lugar em algum mundo
em que a natureza é ainda mais bela
há montanhas e lagos
e o leão e o cordeiro pastam juntos
sem serem mortos pelo homem
há um lugar em outro mundo
em que a harmonia reina
onde jamais chegará a chaga da civilização
que rima com dizimação da gente da terra
e do reino dos bichos e dos animais
há um lugar em outro mundo
na natureza selvagem
na sua face de compassivo equilíbrio idílico* (esqueci de cantar esse trecho)
onde eu talvez pudesse descansar
e entregar meu corpo a ela
devolvê-lo a mãe terra
e ela o cobriria com suavidade maternal
e ancestral
esse lugar existe em meus sonhos
de olhos abertos
(ora marejados)
mas eu não posso ir para lá agora
seria violar as leis dessa mãe terra
mas lua após lua
e aurora após aurora
aproximo-me inexoravelmente dela
e estando aqui por ora me cabe laborar
"ter firmeza é ter amor"
e isso me sobra
até escorrer pelos olhos
me resta seguir
a caminhada solitária
nas aspirações mais nobres
como trabalhar pela libertação de todos os seres
(inclusive em minha própria)
ou ao menos tentar ser
o tipo de pessoa que alguém gostaria de conhecer num mau dia
minhas pernas bambas de cansaço
insisto em fazê-las caminhar
para que quando terminar
o dia derradeiro
eu possa orgulhar-me do meu saldo
devidamente arrependida e retificada
dos débitos
sexta-feira, 18 de abril de 2014
fragmentos II
Certa vez, Stella foi a um casamento - o mais lindo e atípico de todos os poucos que já tinha ido. Numa clareira. Pés no chão. Um xamã. Medicinas da floresta, a razão pela qual ela havia ido originalmente. Sem saber que haveria um casamento ali; foi surpresa. O casal: juntos há 23 anos, com uma filha, e um neto. Sem, contudo, uma cerimônia para celebrar os laços, até aquele dia.
No final da cerimônia, Stella, comovida, abraçou novamente a noiva e disse:
"Vocês me fazem acreditar no amor, mas, mais importante, que o amor que vale a pena, que vale ser compartilhado por uma vida inteira, é esse amor verdadeiro, que a gente reconhece quanto sente, e não algo medíocre que a gente já entra sabendo que vai acabar."
"Você está certa. E muita gente deixa isso passar, porque passa rápido, se dedica a outras coisas e perde."
"Espero que isso jamais aconteça comigo."
(não aconteceu)
*
- Você gosta muito dele, né?
- Sim.
*
- Eu sonhei com ele - ela disse -, eu sonho com ele frequentemente. Sonhei que ele me abraçava como se entendesse tudo que eu sempre quis que ele entendesse, e que me aceitava com o amor e a entrega sem reservas que eu aceitava a ele. Que ele beijava minha mão, minha testa e meus lábios e dizia que era grato por tudo que eu sentia e pelo que eu fazia ele sentir. Sonhei que a gente não brigava mais, só se respeitava e dormia lado a lado.
- Como acabava esse sonho?
- Assim: bonito, lembro-me exatamente da alegria e da esperança me irrigando com a possibilidade do recomeço em paz, porque já senti isso antes, sem estar sonhando. Acordei e chorei. Aí parei, comi um pedaço de bolo, sentei na sacada. Chorei mais um pouco. Mas não desfez o nó no peito.
*
- Ele gosta do que você escreve?
- Para ser sincera, eu não tenho certeza.
*
- Vocês pareciam muito felizes juntos.
- Não era mentira, mas também não era verdade. Exceto quando era. E quando era... era muito. Mesmo.
*
- Você vai superar.
- Eu queria acreditar nisso, mas duvido. Sonho com o dia que a vida prove que eu estava errada. Ou poder sentir algo de maior magnitude por outra pessoa e viver uma história nova. O problema é que eu não quis estar numa história em que eu amasse demais. E tampouco quero estar noutra em que eu ame de menos.
- Você quer muitas coisas.
- Eu só queria esquecer.
- A gente nunca esquece, pequena.
*
"há uma só presença aqui;
é a presença do amor
Deus é amor
que envolve todos os seres
em um só sentimento de unidade
este recinto está cheio da presença do amor
no amor eu vivo
me movo
e existo
quem quer que aqui entre
sentirá a pura e santa presença
do amor."
No final da cerimônia, Stella, comovida, abraçou novamente a noiva e disse:
"Vocês me fazem acreditar no amor, mas, mais importante, que o amor que vale a pena, que vale ser compartilhado por uma vida inteira, é esse amor verdadeiro, que a gente reconhece quanto sente, e não algo medíocre que a gente já entra sabendo que vai acabar."
"Você está certa. E muita gente deixa isso passar, porque passa rápido, se dedica a outras coisas e perde."
"Espero que isso jamais aconteça comigo."
(não aconteceu)
*
- Você gosta muito dele, né?
- Sim.
*
- Eu sonhei com ele - ela disse -, eu sonho com ele frequentemente. Sonhei que ele me abraçava como se entendesse tudo que eu sempre quis que ele entendesse, e que me aceitava com o amor e a entrega sem reservas que eu aceitava a ele. Que ele beijava minha mão, minha testa e meus lábios e dizia que era grato por tudo que eu sentia e pelo que eu fazia ele sentir. Sonhei que a gente não brigava mais, só se respeitava e dormia lado a lado.
- Como acabava esse sonho?
- Assim: bonito, lembro-me exatamente da alegria e da esperança me irrigando com a possibilidade do recomeço em paz, porque já senti isso antes, sem estar sonhando. Acordei e chorei. Aí parei, comi um pedaço de bolo, sentei na sacada. Chorei mais um pouco. Mas não desfez o nó no peito.
*
- Ele gosta do que você escreve?
- Para ser sincera, eu não tenho certeza.
*
- Vocês pareciam muito felizes juntos.
- Não era mentira, mas também não era verdade. Exceto quando era. E quando era... era muito. Mesmo.
*
- Você vai superar.
- Eu queria acreditar nisso, mas duvido. Sonho com o dia que a vida prove que eu estava errada. Ou poder sentir algo de maior magnitude por outra pessoa e viver uma história nova. O problema é que eu não quis estar numa história em que eu amasse demais. E tampouco quero estar noutra em que eu ame de menos.
- Você quer muitas coisas.
- Eu só queria esquecer.
- A gente nunca esquece, pequena.
*
"há uma só presença aqui;
é a presença do amor
Deus é amor
que envolve todos os seres
em um só sentimento de unidade
este recinto está cheio da presença do amor
no amor eu vivo
me movo
e existo
quem quer que aqui entre
sentirá a pura e santa presença
do amor."
Assinar:
Postagens (Atom)