Em alguma época, em algum lugar, houve um escorpião que precisava atravessar um lago. A fábula original não diz o porquê. Então digo que meu escorpião precisava atravessar o lago porque havia visto uma aranha que lhe parecera especialmente apetitosa.
Porém, o escorpião não nadava. E próximo a ele, um sapo coaxava tranquilamente, super zen. Talvez o sapo estivesse recitando silenciosamente o Prajnaparamita. Ou não. De qualquer forma, o escorpião não se interessava por budismo. Era demasiado hedonista. E interrompeu a meditação do sapo:
- Olá, amigo sapo! - disse, num tom falsamente amistoso.
- Olá? - disse o sapo, cauteloso, pensando "Como assim 'amigo', cara, você nunca falou comigo antes, embora coexistamos nesse ecossistema há tempos", e ainda assim, tentando ser gentil, e não manifestar sua desconfiança.
- Desculpe-me por interromper sua meditação, om, mas eu preciso atravessar esse lago, e minha natureza não me permite nadar. Eu gostaria de te pedir para me levar.
- Por que você precisa atravessar o lago?
- Porque minha amada está do outro lado, me esperando - mentiu o escorpião, ciente de que o sapo não gostaria da ideia de levá-lo apenas para que o escorpião pudesse desfrutar de uma aranha, que, afinal, era tão viva quanto eles.
- Sério? Essa é uma boa razão, mas por que você não contorna o lago? - respondeu o sapo, compassivo.
- Oh, eu contornaria! Como você sabe, eu posso passar muito tempo sem me alimentar, e faria esse trajeto com prazer, mas ela - ah, as fêmeas! - tem pressa.
- A paciência é uma virtude, escorpião. Mas nesse caso, que há de se fazer? Tenho de ser compreensivo com o processo dos outros, também. Atravessarei o lago contigo.
- Muito obrigada, meu amigo sapo! O que você quer em troca? - disse o escorpião, satisfeito.
- Nada. Não precisa me dar nada. Vamos lá. - concluiu o sapo, oferecendo suas costas ao escorpião.
O escorpião subiu nas costas do sapo, e o sapo entrou no lago. Durante a travessia, o sapo contou que na verdade não pretendia entrar no lago por um tempo, contudo, havia feito essa concessão pelo escorpião. O escorpião simulou gratidão, mas no fundo, não entendeu o que levava um ser a fazer algo que não queria por outro ser.
No meio da travessia, o escorpião picou o sapo.
- Por que você fez isso?! - disse o sapo - Eu lhe ofereci minhas costas de bom grado, e agora ambos morreremos!
- É a minha natureza - disse o escorpião.
- Não - disse o sapo, muito sério e resoluto, com o que lhe restava de vida -, não é a sua natureza. A sua natureza era não nadar. Isso sim era sua fisiologia, algo que você não podia mudar. Mas a natureza do seu caráter, sua essência? "A existência precede a essência", diz Sartre. Era responsabilidade sua administrar sua natureza e sua essência para se tornarem o que você quisesse ser. Você acha que eu queria entrar no lago para te trazer? Não, mas eu escolhi trazer, e entre a preguiça e a vontade de te ajudar, cedi a segunda. Se você se envenenou, e me envenenou, a responsabilidade é unicamente sua. Sinto muito pela minha vida e pela sua, porque você foi consumido pela sua auto-indulgência e jogou no lixo uma chance de se tornar melhor. - disse o sapo. E morreu.
O escorpião entendeu imediatamente o que o sapo queria dizer. E sentiu-se tomado pela tristeza por ter destruído tantas coisas antes de aprender algo tão simples. Morreu também.
"1) Ando pela rua
Há um buraco fundo na calçada
Eu caio
Estou perdido... sem esperança.
Não é culpa minha.
Levo uma eternidade para encontrar a saída.
2) Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim levo um tempão para sair.
3) Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada
Vejo que ele ali está
Ainda assim caio... é um hábito.
Meus olhos se abrem
Sei onde estou
É minha culpa.
Saio imediatamente.
4) Ando pela mesma rua
Há um buraco fundo na calçada
Dou a volta.
5) Ando por outra rua."
(O Livro Tibetano do Viver e do Morrer)
sexta-feira, 4 de abril de 2014
segunda-feira, 31 de março de 2014
saturno
saudade dos ciclos longos
embora os lunares sejam tão curtos
saudade de tudo
inclusive de esperar
embora os lunares sejam tão curtos
saudade de tudo
inclusive de esperar
segunda-feira, 24 de março de 2014
calma
às vezes eu nem entendo, não
às vezes nem tenho pretensão de fazê-lo
noutras insisto até o ponto de ruptura
boa vontade demais e aceitação de menos
mas tenho aprendido,
gra-du-al-men-te
a calma é princípio do amor.
às vezes nem tenho pretensão de fazê-lo
noutras insisto até o ponto de ruptura
boa vontade demais e aceitação de menos
mas tenho aprendido,
gra-du-al-men-te
a calma é princípio do amor.
domingo, 23 de março de 2014
precoce saudade
eu o vejo em coisas tão diversas
quanto um ensinamento budista
ou pipoca
no meu gato
no Santo Daime
nos meus anéis
na ausência do lado da cama
em tudo que reluz
em tudo que amo
e por vezes
nos nós que apertam
combato os nós
quero que se desatem
quero laços e não nós
quero caminhos de mãos dadas
não estradas arrastadas
quero olhar teus olhos na altura dos meus
não colocando-me abaixo
mas de frente
e ao lado
durante a transitoriedade
exata
que cabe no possível .
quanto um ensinamento budista
ou pipoca
no meu gato
no Santo Daime
nos meus anéis
na ausência do lado da cama
em tudo que reluz
em tudo que amo
e por vezes
nos nós que apertam
combato os nós
quero que se desatem
quero laços e não nós
quero caminhos de mãos dadas
não estradas arrastadas
quero olhar teus olhos na altura dos meus
não colocando-me abaixo
mas de frente
e ao lado
durante a transitoriedade
exata
que cabe no possível .
ojos negros
existem tantos
jeitos de
ser
existem tantas formas
de
ser
esperança resguardo
de que harmonizemos
nossos seres
e sejamos
em paz
na simplicidade
elevada
da gratidão
do perdão
compreensão
compaixão
porque o tempo cura
mas o amor cura mais
(a perseverança é uma qualidade
tão nobre quanto a aceitação desapegada
firmo-me no que significa ser fiel ao que sinto
hoje
e sigo buscando
teus olhos de novo
e se puder eu sigo buscando
teus olhos -
tão bonitos
tão escuros
tão argutos
poço profundo de escorpião
- a vida inteira
até o dia
em que eles encontrem os meus de novo
e repetir isso por todas as noites e manhãs
até o fim desta vida
e todas as que sucederão)
jeitos de
ser
existem tantas formas
de
ser
esperança resguardo
de que harmonizemos
nossos seres
e sejamos
em paz
na simplicidade
elevada
da gratidão
do perdão
compreensão
compaixão
porque o tempo cura
mas o amor cura mais
(a perseverança é uma qualidade
tão nobre quanto a aceitação desapegada
firmo-me no que significa ser fiel ao que sinto
hoje
e sigo buscando
teus olhos de novo
e se puder eu sigo buscando
teus olhos -
tão bonitos
tão escuros
tão argutos
poço profundo de escorpião
- a vida inteira
até o dia
em que eles encontrem os meus de novo
e repetir isso por todas as noites e manhãs
até o fim desta vida
e todas as que sucederão)
sexta-feira, 14 de março de 2014
Crônica do beco
À Luiza Coimbra e Carolina Knihs
Arde. Arde assim de um jeito morno, agridoce. Noutras arde pungente, rasga mesmo. Sim: corrói. Arde e ela atira para várias direções buscando que não arda. Ou que arda morno, suave. Seus êxitos são temperamentais.
Borderline não senhor, que havia método em seus excessos. Excessos e arroubos que ela já aprendera bem mais a controlar.
Depressiva? Que é depressão? Disfunção neuroquímica ou mal-estar da alma? Qual seria afinal o limiar da dor compreendida e a socialmente inaceitável? Critério arbitraríssimo é o de categorizar depressão como falta de funcionalidade. Depressivos notórios produziram coisas. Produziram inclusive seus próprios fins.
Já não se queixa; apreende. O que arde às vezes coça. Mas às vezes nem incomoda, embora ainda esteja lá. Contemplando com olhos diretos e sérios. Onisciente.
Respira fundo porque consegue fazê-lo. Porque pode. Respira fundo ainda que o ar em seus pulmões às vezes mais arda que alivie. Mas respira, sôfrega. Comovida. Aceitando.
Respira fundo na esperança que desfaça o nó no estômago; porém nem sempre. Ela lembra contudo de quando se perdeu uma vez num beco escuro tão comprido que achou que não houvesse saída. A noite fechando o cerco e os receios todos sibilando em seus ouvidos. Desespero. Toca as paredes do beco, passa os dedos procurando ranhuras no concreto. Toca a princípio com cautela, logo enfia os dedos na parede suja, arranha. Lasca as unhas. Não há saída pelos lados, não. Nada de tergiversar, embora tivesse medo. Respirou fundo como quem implora ao ar que lhe nutra com a vida. Fecha os olhos. Segue. Segue receosa, olha pra trás a cada dois passos. O beco, ah, o beco. Haveria será saída do beco? Ela não sabe.
Sabe é que ficar parada não é uma opção. Entregar-se ao desespero tampouco; isso não a protegeria dos perigos de estar sozinha à noite perdida num beco. Para ver a luz, precisava sair dali. Seguiu. Com medo mas convicção. Resoluta. Caminhou. Caminhou bastante tempo, que beco era aquele, meu Deus? Achou a saída, por fim. Aliviou-se. Ainda estava noite escura. Mas a noite não era eterna.
"Que importa a paisagem, a Glória, a baía
a linha do horizonte?
...o que eu vejo é o beco."¹
Ela via o beco. Todavia via também a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte. Via várias coisas e certamente ainda veria muito mais. Se insistisse o bastante.
Todos os becos são transponíveis.
-
O poema indicado por * é de Manuel Bandeira. Serviu de inspiração também o texto "Além do ponto", de Caio Fernando Abreu.
segunda-feira, 10 de março de 2014
dolor
vampiros só entram nas casas
se convidados
pessoas só estilhaçam corações
nos quais entraram
estilhaçam por perfídia
ou ignorância
ou ambos
um dia fiquei tão amargurada
que jurei a mim mesma não mais escrever aqui poemas
sobre tudo aquilo
lá
tenho mantido isso
esse não é um poema de amor
é um poema sobre como confiança
às vezes envenena
e te rasga por dentro
sobre como perdoar
é um ato deliberado e doloroso
de sufocar seu ego
e sua necessidade de auto-proteção
em prol de algo maior
algo maior que eu
mas o caminho para tal
é tão profundamente doloroso
que espero somente ter tomado as decisões certas
para que um dia
toda essa dor cesse e faça sentido
faça sentido
para além de tanto
tanto
tanto
ter doído.
se convidados
pessoas só estilhaçam corações
nos quais entraram
estilhaçam por perfídia
ou ignorância
ou ambos
um dia fiquei tão amargurada
que jurei a mim mesma não mais escrever aqui poemas
sobre tudo aquilo
lá
tenho mantido isso
esse não é um poema de amor
é um poema sobre como confiança
às vezes envenena
e te rasga por dentro
sobre como perdoar
é um ato deliberado e doloroso
de sufocar seu ego
e sua necessidade de auto-proteção
em prol de algo maior
algo maior que eu
mas o caminho para tal
é tão profundamente doloroso
que espero somente ter tomado as decisões certas
para que um dia
toda essa dor cesse e faça sentido
faça sentido
para além de tanto
tanto
tanto
ter doído.
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