A gente endeusa os ausentes. Aqueles ausentes porque as vidas pararam de se cruzar com as nossas e tomaram rumos diferentes. Galeras diferentes, cidades diferentes, hobbies diferentes, empregos diferentes. Endeusa como se houvesse sido uma época gloriosa e dourada, porque a ausência dá uma tonalidade totalmente nova às lembranças. E a gente endeusa os mortos.
Esse post é só uma dica humilde de uma garota de dezessete anos bastante ferrada, mas com boas intenções:
A vida é terrivelmente transitória. Terrivelmente breve, terrivelmente frágil. Portanto,
é importante dizer a quem você ama o quanto você os ama enquanto eles ainda podem te ouvir.
E não só dizer, porque dizer às vezes é muito fácil. É importante abraçar, cuidar, ouvir. Ouvir. Ligue pras pessoas que você gosta, pergunte, com sinceridade, como elas estão. Não as deixe só, imersas em dor.
Só digo isso porque eu queria ter feito isso. Pior que eu sou uma pessoa que acredita de verdade que amor, devoção, responsabilidade e lealdade devem andar sempre juntos. Costumo levar isso a sério e me esforçar pra ser assim com quem eu amo.
Mas falhei, falhei, falhei. Falhei miseravelmente com ela.
Perdão.
E você aí, que me lê, ou não: Ame. Ame direito. Não queira esperar sentir a dor de quando a ausência é definitiva e eterna. Acredite: dói demais. Cuide bem das pessoas que você ama enquanto você tem oportunidade.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Björk - Hyperballad
It's real early morning
No-one is awake
I'm back at my cliff
Still throwing things off
I listen to the sounds they make
On their way down
I follow with my eyes 'til they crash
And imagine what my body would sound like
Slamming against those rocks
And when it lands
Will my eyes be closed or open?
I go through all this
Before you wake up
So I can feel happier
To be safe up here with you.
sábado, 19 de maio de 2012
A morte é a verdade absoluta.
Esmagadora. Inexorável.
Não há lágrimas que revertam a morte. Não há dinheiro, não há desespero ou desamparo que a compadeçam. Especialmente quando essa morte foi escolhida.
Queria abraçá-la de novo. Acima de tudo, queria abraçá-la de novo. Queria sentir aquele 1,57m e ouvir sua risada e mostrar coisas a ela.
Dói, dói, dói. Disseram-me: "Perdi minha mãe há 20 anos e ainda dói." Tenho um belo futuro pela frente então.
É possível encontrar um lugar no mundo para mim? Ela jamais encontrou; ela me disse isso ano passado.
A pessoa mais parecida comigo.
Que fim horrível.
Queria ter fé. Não a parte dos preconceitos e da esquizofrenia. Queria só o conforto de conseguir acreditar num deus compassivo que assegurasse paz a ela. A paz que eu queria ter dado.
A presença da ausência é muito forte. Parece que eu morri um pouco junto. É um universo enorme de coisas que fazem falta e coisas que eu queria compartilhar e não posso. De comidas a viagens. De discussão sobre livros a xícaras de chá mate.
Que saudade. Se ao menos esse pranto servisse pra aliviar sua alma.
Esmagadora. Inexorável.
Não há lágrimas que revertam a morte. Não há dinheiro, não há desespero ou desamparo que a compadeçam. Especialmente quando essa morte foi escolhida.
Queria abraçá-la de novo. Acima de tudo, queria abraçá-la de novo. Queria sentir aquele 1,57m e ouvir sua risada e mostrar coisas a ela.
Dói, dói, dói. Disseram-me: "Perdi minha mãe há 20 anos e ainda dói." Tenho um belo futuro pela frente então.
É possível encontrar um lugar no mundo para mim? Ela jamais encontrou; ela me disse isso ano passado.
A pessoa mais parecida comigo.
Que fim horrível.
Queria ter fé. Não a parte dos preconceitos e da esquizofrenia. Queria só o conforto de conseguir acreditar num deus compassivo que assegurasse paz a ela. A paz que eu queria ter dado.
A presença da ausência é muito forte. Parece que eu morri um pouco junto. É um universo enorme de coisas que fazem falta e coisas que eu queria compartilhar e não posso. De comidas a viagens. De discussão sobre livros a xícaras de chá mate.
Que saudade. Se ao menos esse pranto servisse pra aliviar sua alma.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Vai, Giovana, ser gauche na vida
Eu espero por epifanias que não virão
Pelo súbito despertar de consciência e iluminação
Por certezas, verdade e convicção
Queria respostas prontas e dogmas
Queria crenças enlatadas
Queria ser quem aceita de bom grado isso tudo
Mas eu me ofendo com mediocridade
Eu não toleraria uma vida de superficialidade
Não, na verdade
Não me serve a alienação
Não me serve viver no raso
No fácil, no óbvio, no supostamente nato
Não me servem coisas impostas
Eu escolhi o amor, a verdade, a política e a empatia
E mesmo que isso me arruine
Eu escolhi
E vou até o fim.
Pelo súbito despertar de consciência e iluminação
Por certezas, verdade e convicção
Queria respostas prontas e dogmas
Queria crenças enlatadas
Queria ser quem aceita de bom grado isso tudo
Mas eu me ofendo com mediocridade
Eu não toleraria uma vida de superficialidade
Não, na verdade
Não me serve a alienação
Não me serve viver no raso
No fácil, no óbvio, no supostamente nato
Não me servem coisas impostas
Eu escolhi o amor, a verdade, a política e a empatia
E mesmo que isso me arruine
Eu escolhi
E vou até o fim.
domingo, 6 de maio de 2012
In memoriam
Você está no meu jeito de abraçar. No meu jeito de gostar de mãos, de ser prestativa e atenciosa com quem eu gosto. Você está na minha atenção com os detalhes. Você está no meu jeito de amar.
Você está nas minhas mãos que se tornaram levemente marcadas por cortes estúpidos na cozinha, como as suas eram. Você está no meu gosto pelos livros, na minha alfabetização precoce. Na Mafalda, Grimble, no Voltaire, George Orwell, no livro do Nietzsche que eu convenci ele a te comprar uma vez. Você está no fato de eu saber escrever Nietzsche e saber mais ou menos quem ele foi.
Você está na minha suposta habilidade na escrita. Você está no meu gosto por The Wall, por Pink Floyd, Brain Damage. Por If. Por Cremant nuvols, por Run run se fue pa'l norte, por The Scientist, When you were young, O Peixe, Colorblind.
Você está no meu gosto por chá mate, erva doce, cidreira, hortelã. Do mingau de aveia que talvez eu nunca mais tome. Na lentilha, no feijão, no tahine, no quiabo, na torta de limão, nos bolos que você não sabia fazer.
Você está na tua risada escandalosa, como você contou da primeira frase que eu li - "Alugo mobilete". Eu era novíssima (3 anos? 4?), e você contou que ficou encantada e riu bem alto. E eu fiquei meio assustada. Isso é bem nossa cara.
Você está nas correções que não fez na minha alfabetização, porque achava meus erros (como um "E" com muito mais de três traços) bonitinhos.
Você está no meu senso de humor, no meu jeito contestador. Você está no meus valores, na integridade e honestidade que eu tento sempre ter.
Você está no fato de eu gostar do jeito que certas pessoas mexem no meu cabelo - porque é parecido com o jeito que você mexia. Você era muito carinhosa. E dizem que eu também sou.
Você está na minha baixa estatura."Soy pequena pero cumplidora/compridona". Você está nos nossos infinitos trocadilhos e piadas internas. Você está nas nossas análises intuitivas sobre as pessoas e fatos. Você odiava hipocrisia.
Você está nas coisas que costurou pra mim, e no pouco que sei costurar. Você está nos nossos desenhos. Você está nas nossas viagens.
Você está em mim inteira. Em inúmeros aspectos meus. Você está nos sucessos que eu espero obter e queria que você assistisse. Você está em dezessete anos de lembranças. Você está no mero fato de eu existir, e o tanto que te condenei por isso.
E eu te amo. E você está na minha crença no amor.
"Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
- João Guimarães Rosa, teu escritor favorito. E eu espero que você descanse, mãe, que você descanse. Espero que encontre paz. Queria ter te abraçado mais nos últimos tempos. Mas acho que você me perdoa.
Vou honrar sua memória.
Eu te amo. Você tinha duas pastas de desenhos nos quais eu dizia basicamente isso. Mas eu ainda queria ter dito isso mais.
Enquanto eu viver, sentirei saudade. Descanse.
* 21/11/1957
† 04/05/2012
Você está nas minhas mãos que se tornaram levemente marcadas por cortes estúpidos na cozinha, como as suas eram. Você está no meu gosto pelos livros, na minha alfabetização precoce. Na Mafalda, Grimble, no Voltaire, George Orwell, no livro do Nietzsche que eu convenci ele a te comprar uma vez. Você está no fato de eu saber escrever Nietzsche e saber mais ou menos quem ele foi.
Você está na minha suposta habilidade na escrita. Você está no meu gosto por The Wall, por Pink Floyd, Brain Damage. Por If. Por Cremant nuvols, por Run run se fue pa'l norte, por The Scientist, When you were young, O Peixe, Colorblind.
Você está no meu gosto por chá mate, erva doce, cidreira, hortelã. Do mingau de aveia que talvez eu nunca mais tome. Na lentilha, no feijão, no tahine, no quiabo, na torta de limão, nos bolos que você não sabia fazer.
Você está na tua risada escandalosa, como você contou da primeira frase que eu li - "Alugo mobilete". Eu era novíssima (3 anos? 4?), e você contou que ficou encantada e riu bem alto. E eu fiquei meio assustada. Isso é bem nossa cara.
Você está nas correções que não fez na minha alfabetização, porque achava meus erros (como um "E" com muito mais de três traços) bonitinhos.
Você está no meu senso de humor, no meu jeito contestador. Você está no meus valores, na integridade e honestidade que eu tento sempre ter.
Você está no fato de eu gostar do jeito que certas pessoas mexem no meu cabelo - porque é parecido com o jeito que você mexia. Você era muito carinhosa. E dizem que eu também sou.
Você está na minha baixa estatura."Soy pequena pero cumplidora/compridona". Você está nos nossos infinitos trocadilhos e piadas internas. Você está nas nossas análises intuitivas sobre as pessoas e fatos. Você odiava hipocrisia.
Você está nas coisas que costurou pra mim, e no pouco que sei costurar. Você está nos nossos desenhos. Você está nas nossas viagens.
Você está em mim inteira. Em inúmeros aspectos meus. Você está nos sucessos que eu espero obter e queria que você assistisse. Você está em dezessete anos de lembranças. Você está no mero fato de eu existir, e o tanto que te condenei por isso.
E eu te amo. E você está na minha crença no amor.
"Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."
- João Guimarães Rosa, teu escritor favorito. E eu espero que você descanse, mãe, que você descanse. Espero que encontre paz. Queria ter te abraçado mais nos últimos tempos. Mas acho que você me perdoa.
Vou honrar sua memória.
Eu te amo. Você tinha duas pastas de desenhos nos quais eu dizia basicamente isso. Mas eu ainda queria ter dito isso mais.
Enquanto eu viver, sentirei saudade. Descanse.
* 21/11/1957
† 04/05/2012
terça-feira, 1 de maio de 2012
Pequenas epifanias
"Qualquer amor é um pouquinho de saúde, um descanso da loucura."
- Guimarães Rosa
Esses dias tem sido doces. E li algumas postagens muito bonitas hoje.
Cheguei a uma conclusão simples, mas abençoada: Eu ainda sei amar. O amor continua sendo parte inerente da minha essência.
Isso pode parecer tão leve ou clichê. Mas para mim, significa muito. Porque eu sofri o suficiente pra ficar um bocado amargurada. E conheci pessoas o suficiente para me perguntar se eu não havia perdido a capacidade de amar. E isso me angustiou. Porque eu acredito de verdade que, se existe salvação para uma alma, ela é através do amor. Romântico, fraternal, seja pela humanidade, por uma única pessoa ou pelo seu gato. Mas algum tipo de amor. De conexão.
(que fique claro que cada um encontra seu próprio caminho. Mas temi ter perdido esse que sempre me pareceu ser o meu.)
Sinto-me em paz. Espero que dure. A paz, digo. O resto... que seja doce. E que seja real. Só isso.
- Guimarães Rosa
Esses dias tem sido doces. E li algumas postagens muito bonitas hoje.
Cheguei a uma conclusão simples, mas abençoada: Eu ainda sei amar. O amor continua sendo parte inerente da minha essência.
Isso pode parecer tão leve ou clichê. Mas para mim, significa muito. Porque eu sofri o suficiente pra ficar um bocado amargurada. E conheci pessoas o suficiente para me perguntar se eu não havia perdido a capacidade de amar. E isso me angustiou. Porque eu acredito de verdade que, se existe salvação para uma alma, ela é através do amor. Romântico, fraternal, seja pela humanidade, por uma única pessoa ou pelo seu gato. Mas algum tipo de amor. De conexão.
(que fique claro que cada um encontra seu próprio caminho. Mas temi ter perdido esse que sempre me pareceu ser o meu.)
Sinto-me em paz. Espero que dure. A paz, digo. O resto... que seja doce. E que seja real. Só isso.
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